Mulheres empreendem em meio às incertezas econômicas geradas pela crise de Covid-19


Empreendedoras relatam medo em ter que investir em suas empresas num cenário instável


De um lado o acúmulo de boletos e dívidas, do outro a preocupação de não ter de onde tirar o dinheiro para pagá-los. Essa tem sido a realidade de muitos brasileiros que sobrevivem diariamente a crise econômica provocada pela pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a qual resultou em 93 milhões de pessoas que ficaram sem trabalhar durante o período de janeiro e setembro de 2020, segundo os dados levantados pela Pesquisa de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


Com as contas no vermelho e a necessidade de não mais pertencer a esses números, a microempreendedora Érika Oliveira, de 42 anos, decidiu se arriscar e lançou em 27 de outubro do ano passado, o seu próprio negócio: o Picolé de Coxinha. Foi na praia de Vilas do Atlântico, na Região Metropolitana de Salvador, que resolveu testar a curiosidade e opinião do público com o famoso salgado de festa, que recebe um toque pouco comum: são feitos no formato de picolé.


"Eu moro perto da praia, então eu comecei a inventar coisas práticas que pudessem ser vendidas lá. Aí testei algumas receitas que pudessem ser colocadas no palito. Em uma das que fiz, o pessoal dizia que 'estava bom', mas era só uma bolinha que eu fazia e enfiava no palito comum, de churrasco", diz ao mencionar sobre a insatisfação sentida na época por não conseguir mirar em uma boa ideia. "Mas eu comecei a pesquisar na internet 'salgados no palito', até encontrar uma foto de um pico

lé de coxinha e foi quando eu testei e adaptei", completa.


Mas antes de começar a produzir os picolés de coxinha em larga escala, originalmente criado por um professor de dança da cidade de Jaú, em São Paulo, Érika, que também é artesã, conta que precisou analisar o mercado e viu no delivery a oportunidade de empreender, já que com o isolamento social, uma das medidas preventivas contra a disseminação do vírus, osbrasileiros aumentaram o hábito de pedir comida por meio de aplicativo. De acordo com uma pesquisa feita pela Mobills, startup de gestão e finanças pessoais, os gastos com delivery cresceram 149% em 2020, sendo registrado uma alta de 187% em dezembro, na comparação com janeiro do mesmo ano.


Com a pandemia, até os microempreendimentos do ramo alimentício com mais tempo no mercado precisaram reformular suas vendas e adotar o pedido por entrega para que mais pessoas pudessem ter a chance de consumir seus produtos em casa. Um exemplo são os salgados apimentados de dona Maria Eunice, de 61 anos, proprietária da marca 'Xibiu de Mainha', que desde 2018 captava os clientes através de feiras gastronômicas nos bairros de Salvador, já que antes mesmo de explicar do que se tratava o quitute frito, o nome criativo já era um atrativo para chamar a atenção de quem passava pelo local e lia as seguintes placas: "Já comeu Xibiu?" e "Prato do dia: Xibiu de Mainha", em referência aos bolinhos à base de trigo que são fritos e recheados com diferentes sabores. “Ele não é acarajé, não é coxinha, nem risole, é apenas Xibiu”, define Mainha.

Acostumada com a venda "no corpo a corpo" como define o atendimento presencial, dona Maria relata o desafio que foi ter que deixar de participar de feiras de rua, eventos e festas populares, e passar a lidar com o distanciamento social. A proprietária do 'Xibiu de Mainha' ainda frisa que o cenário atual do Brasil serviu para que ela entendesse a importância das vendas através dos canais digitais. "[Nós] entendemos que a presença digital deveria ser maior, então criamos um site para que os pedidos fossem feitos. Lá, também se encontra o cardápio e os combos dos salgados. E também entramos nas plataformas de delivery, mas ainda assim é difícil lidar com a instabilidade econômica que estamos vivendo, além da dificuldade de ser uma microempreendedora nesse tempo de pandemia", pontua ela, que entrou para os serviços de entrega há quatro meses.


Assumindo os riscos

Apesar do cenário trazer incertezas para alguns segmentos, ele foi a oportunidade para outros que aguardavam o momento certo para empreender, ainda que seja em plena pandemia. Um levantamento divulgado pelo Ministério da Economia, em 2 de fevereiro deste ano, mostra que o Brasil registrou um número recorde de aberturas de empresas em 2020 ao constatar um aumento dos microempreendedores individuais (MEI), que somaram 2,6 milhões ao longo do ano.


Foram abertas 2.663.309 empresas nesse formato no ano passado, número que é 8,4% maior em relação ao mesmo período de 2019. Com isso, o Brasil totaliza 11.292 MEI 's ativos. Entre os segmentos que mais foram abertos estão: o comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios; promoção de vendas; cabeleireiros, manicure e pedicure; fornecimento de alimentos preparados para consumo domiciliar; e obras de alvenaria (pedreiro independente).


No entanto, de acordo com a educadora financeira e corporativa, Cinara Santos, antes de decidir abrir a própria marca, o microempreendedor precisa estar atento às novidades do ramo que pretende atuar, para que não sofra grandes riscos e prejuízos financeiros investidos. "Um negócio sempre é um investimento de risco, principalmente se o empreendedor não pesquisar sobre seu futuro ramo. Muitas vezes as pessoas se aventuram numa atividade que não tem conhecimento por achar que dá muito dinheiro, mas é importante considerar fazer algo que goste ou que tenha boas habilidades", comenta a especialista.


Ao comentar sobre as incertezas e desafios de empreender na pandemia, Érika Oliveira afirma que o medo ainda existe. “Eu estou com medo porque estou investindo. Do meu trabalho, eu pago algumas contas de casa e todo o resto é investido para melhorias do Picolé de Coxinha. A exemplo da patente, que eu não imaginava que iria ser caríssimo e os maquinários industriais. Então eu estou com muito medo. Eu nunca imaginei dormir e acordar pensando em dívidas”, diz a artesã.


A especialista em finanças também pontua o erro mais frequente de quem é iniciante no mundo do empreendedorismo: misturar as contas pessoais com as da empresa. "Essa mistura faz com que o empreendedor não tenha a visão real das finanças do seu negócio e, às vezes, o induz a tomar decisões que consequentemente poderão levar ao prejuízo. A separação é uma atitude fundamental para o crescimento profissional, além de um controle diário do fluxo de caixa", sugere Cinara.



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