Entrevista: psicóloga explica sobre comportamentos impulsivos durante o isolamento social



Com o avanço da pandemia da Covid-19, houve a necessidade do isolamento social que é uma das orientações sanitárias propostas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para prevenir a propagação do novo coronavírus. Ficar em casa diariamente se tornou uma realidade para a maioria das pessoas. Para passar o tempo, muitas buscaram fazer diversas atividades que gerassem sensações de prazer como jogos, compras, ou até mesmo, consumir bebidas alcoólicas.


Nesse período, o Brasil ficou no 12° lugar do mundo onde mais pessoas jogam por celular, computador ou videogame, ou seja, 62%, de acordo com um levantamento da Kantar Ibope Media. 46% dos brasileiros aumentaram o volume de compras online durante a pandemia, enquanto 7% compraram online pela primeira vez, conforme pesquisa da Mastercard e Americas Market Intelligence. Desde o início do isolamento social houve um crescimento de 38% nas vendas de bebidas alcoólicas nas distribuidoras, segundo dados da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas.


Esses dados podem estar relacionados a muitas situações, entre elas ao do comportamento impulsivo, apesar de ainda não haver comprovação científica. Para entender mais sobre esse comportamento, conversamos com a psicóloga e dançaterapeuta Taís Alves. Ela explica que a privação pode levar o indivíduo “a agir de forma impulsiva para se satisfazer ou se aliviar tendo algum comportamento, tomando decisão, baseado em suas emoções e pensamentos do momento”.


ABAN: Como identificar um comportamento impulsivo?

Taís Alves: O comportamento impulsivo está ligado a querer as coisas em curto prazo. São as pessoas que querem algo imediato e tendem a preferir e escolher, no caso, algo que traga um reforço imediato ou que alivie ela de uma tensão, de uma angústia ou que traga uma sensação de prazer. Então, acaba sendo, pessoas que não costumam pensar antes de fazer alguma coisa, já fazem no calor da emoção. Dessa forma, a pessoa tende a ter comportamentos a curto prazo, para ter uma consequência a curto prazo. Acaba sendo comportamentos impossíveis.


São pessoas que são levadas também pela emoção, seja de raiva, de alegria, de tristeza, ela tende a agir, a ser reativa junto com sua emoção. Seus comportamentos são imediatistas, reativos às suas emoções, aos seus pensamentos e acabam depois se arrependendo porque às vezes não era o que ela queria fazer. Ela não deu um tempo para analisar o todo, ela olha para uma coisa só, ela foca naquilo, ela reage imediatamente ou imerge no seu pensamento por um tempo. Ela não consegue ampliar o seu olhar para enxergar outras variáveis.


ABAN: Qual a diferença entre a compulsão e o impulso?

TA: Compulsão está mais ligado a uma frequência. É a frequência que a pessoa tende a fazer aquilo, por exemplo, às vezes não está nem de fato com vontade de fazer aquilo, mas ela está muito condicionada a achar que precisa daquilo, assim ela vai e faz. De alguma forma, pode ter também a sensação de prazer ou de alívio que se torna compulsivo ou até uma relação de dependência aquele objeto. Ela aumenta a frequência com aquilo que ela se relaciona, com o que ela compra ou com o que ela tem um comportamento de risco ou vai de encontro a esse algo aí reforçador, também a curto prazo.


Já o impulso é aquilo que é levado por uma emoção, por um pensamento e que a frequência é menor que a da compulsão. E você pode responder aquele impulso sim ou não. Na compulsividade você está ali o tempo inteiro atrás daquilo, agindo diretamente. E o impulso pode ser só uma vontade, mas ele também não vai aparecer todas às vezes numa frequência alta, numa intensidade alta. Vai aparecer numa menor frequência, talvez com alta intensidade em alguns momentos, mas em outros momentos com uma baixa intensidade também. Então, é o que varia um pouco da compulsividade, que tem alta frequência e alta magnitude de intensidade.


ABAN: Quais os riscos que a impulsividade pode trazer?

TA: A pessoa pode ter realmente comportamentos de risco de acabar com sua própria vida, no sentido dela morrer, e também ou ter alguma doença como doenças sexualmente transmissíveis. Neste caso, a pessoa por impulso tem relações sexuais sem camisinha e isso pode trazer uma doença. Ainda existem pessoas que fazem isso no impulso do momento, cedem ao impulso e correm esse risco.


Então, pode trazer danos a sua própria vida ou a vida das pessoas ao seu redor. Pode também destruir relações, carreira, enfim, a impulsividade pode trazer consequências. Outro exemplo, numa briga pode haver um comportamento que acabe ferindo alguém fisicamente ou matando. O comportamento impulsivo pode gerar também o fato de você estar num lugar que, na verdade, você não quer estar ou de fazer algo que você não queria fazer. Simplesmente, por esse curto prazo, de não raciocinar, de não ir além daquele evento imediato.


ABAN: A necessidade de isolamento social neste período de pandemia pode fazer com que uma pessoa apresente sintomas impulsivos?

TA: Pode. Quanto mais a privação de reforçadores importantes, pode gerar emoções diversas como angústia, tristeza, estresse, ansiedade, insônia, e situações surgirem em que a pessoa seja levada a agir de forma impulsiva para se satisfazer ou se aliviar tendo algum comportamento, tomando decisão, baseado em suas emoções e pensamentos do momento.


ABAN: Quais ações podem influenciar um comportamento impulsivo durante a pandemia?

TA: Uso das redes sociais e internet com diversos gatilhos de compra, anúncios, além de gatilhos de comparação de vida ideal que diminuem a auto estima e impulsiona a pessoa a agir colado com sua emoção do momento. Também brigas com familiares ou relacionamentos instáveis em casa, onde as pessoas estão com as emoções instáveis por conta de todas as dificuldades financeiras, sociais, psicológicas na pandemia; falta de rotina ou excesso dela; dificuldade diante de algum acontecimento; consumo de álcool e outras drogas em excesso.


ABAN: Quais são as formas de tratamento para controlar a impulsividade?

TA: Primeiro de tudo é essencial fazer psicoterapia para entender o que está por trás do comportamento impulsivo e poder tratar especificamente. Segundo, não ser reativo a pensamentos e sentimentos. Não agir de acordo com eles, se desgrudar deles para olhar para o evento com a razão. Não tomar nenhuma atitude quando estiver triste, nem alegre, nem com raiva, nem angustiado.


Terceiro, usar a respiração para se regular emocionalmente ou qualquer outra coisa que acalme através dos 5 sentidos e não seja destrutivo - ouvir música, inalar algum cheiro calmante, chás, etc. Quarto, depois de se acalmar, refletir e analisar qual a consequência que quer ter a longo prazo ou a consequência que realmente importa para si. Se o comportamento afastar do que se quer como consequência, tenha comportamentos que te aproximem para o que se quer independente do momento.


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