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“O bom jornalismo é mais necessário que nunca”

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Apaixonada pela profissão desde os 16 anos, a jornalista Cristina Serra defende que os direitos humanos são uma “pauta obrigatória no Brasil” e garante se sentir “livre e independente” para se posicionar.

 

Antes da vida acadêmica, os questionamentos sobre do Brasil e suas desigualdades já pautavam a vida dela. Ao ingressar no curso de jornalismo, mesmo sob as sombras do fim da ditadura militar,  tornou-se membro da UNE e começou na profissão no jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, em 1982, em Belém, sua terra natal.

 

Alheia ao deslumbramento do fazer jornalístico “global”, Cristina é uma profissional com mais de 30 anos de profissão, com passagem por diversos veículos, sendo a Rede Globo, o atual e de maior permanência. A atuação nacional e internacional permitiu que ela pudesse contar histórias e participar de fatos como a cobertura do desastre de Mariana, ao mesmo tempo em que sentava na bancada Programa do Jô para debater o cenário político como uma de “suas meninas”.

 

Combativa em suas mídias sociais, Cristina Serra se posiciona claramente sobre pautas que talvez outros jornalistas hesitassem. A seguir, você confere a entrevista exclusiva que a jornalista concedeu para a ABAN.

 

ABAN: Você tem um olhar atento às pautas relacionadas aos Direitos Humanos. Qual o papel do jornalista nesta pauta?
Cristina Serra: Acho que é uma pauta obrigatória no Brasil, onde muitos desses direitos ainda são muito desrespeitados. A maior chaga do Brasil é a extrema desigualdade socioeconômica. E muito em função dessa desigualdade temos um quadro muito amplo de desrespeito aos direitos humanos. Pobres, negros, mulheres, população LGBT, indígenas tem direitos básicos desrespeitados. C
omecei na profissão no jornal Resistência, da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, em 1982, em Belém, quando eu ainda era estudante. Portanto, a preocupação com esses direitos está na base da minha formação como jornalista. O Resistência me deu régua e compasso no jornalismo.

 

 

ABAN: O que mais lhe mobiliza?
Cristina: Além da pauta de direitos humanos, a desigualdade e todas as suas nefastas consequências. Hoje em dia, a pauta ambiental também está na minha lista de prioridades jornalísticas. Nem sempre consigo fazer matérias sobre esses assuntos. Mas me esforço bastante para direcionar minha atuação como jornalista para essas pautas.

ABAN: Certa vez você afirmou que “na cobertura de cidade, você passa a viver mais de perto o drama do cidadão comum”. Qual a importância disso para o exercício jornalístico?
Cristina: Na cobertura de cidade, o repórter vive as agruras do cotidiano do cidadão: o mau atendimento nos hospitais, o trânsito infernal, a falta de transporte coletivo adequado, a falta de segurança, enfim, tudo aquilo que transforma o dia a dia dos mais pobres numa luta diária pela sobrevivência. Fui repórter de cidade no começo da carreira numa cidade complexa como o Rio de Janeiro, onde a desigualdade é gritante e onde esses dramas cotidianos são exacerbados. É importante para o jornalista, geralmente oriundo da classe média, tomar um choque de realidade e entender o real sentido da profissão, entender que jornalismo não é glamour. Ao contrário, são 98% de transpiração, 1% de inspiração e 1% - vá lá - de glamour.


 

ABAN: Com a notoriedade que tens, onde começa a pessoa e termina a jornalista e vice-versa?
Cristina: É tudo uma coisa só. O jornalismo me fez quem eu sou e, ao mesmo tempo, meus valores de família moldaram a jornalista que sou. Dei muita sorte de, aos 16 anos, quando me inscrevi para o vestibular, ter certeza de que era isso que eu queria ser e fazer na vida.

ABAN: Em “As meninas do Jô”, os posicionamentos políticos das participantes eram evidentes. Você acredita em isenção?
Cristina: Não acredito em isenção nem em imparcialidade ou neutralidade. Toda pessoa tem seus valores e isso influencia sua atuação profissional. Acredito, porém, em objetividade e padrões universais de exercício do jornalismo. Entre esses padrões, eu diria que o bom jornalismo deve se pautar por valores humanistas, como a defesa da paz, da tolerância e do respeito aos direitos humanos, a defesa dos interesses dos contribuintes, dos cidadãos, dos consumidores.

ABAN: Em suas redes sociais, eventualmente você se posiciona sobre questões políticas. Se sente à vontade para isso? O fato de estar em um grande veículo lhe restringe na emissão dessas posições pessoais?
Cristina: Essa nova dimensão da vida moderna, a atuação no mundo digital, é um risco. Uma palavra mal colocada num post pode virar um desastre (risos). Tento administrar a minha participação nas redes sociais com parcimônia. No entanto, considero que o quadro político no Brasil atual exige certos posicionamentos. Me posiciono como cidadã e não levo em conta a empresa onde trabalho. Me sinto livre e independente para me posicionar.

 

ABAN: O que foi mais impactante ou mais a emocionou nestes anos de profissão?

Cristina: "São tantas emoções", diria Roberto Carlos (risos). Tive muitas, em 30 anos de carreira. Mais recentemente, um tema me impactou muito, que foi a cobertura do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Conheci pessoas incríveis entre os atingidos,  gente que perdeu tudo de uma hora pra outra e que está tentando levar a vida com muita valentia. Isso me fez repensar uma série de coisas na minha vida, me emocionei muito com esses brasileiros e com a luta deles para seguir em frente, apesar da tragédia.

 

ABAN: Qual reportagem, cobertura, matéria mais a desafiou?
Cristina:  A cobertura do rompimento da barragem foi muito desafiadora porque, de uma hora pra outra, tive que entender de engenharia, geotecnia, segurança de barragem etc. Todas as coberturas que exigem algum conhecimento técnico são difíceis porque você tem que compreender rapidamente assuntos muito complexos e traduzi-los para o telespectador. Outra cobertura desafiadora foi a do julgamento do Mensalão. Tive que mergulhar no mundo jurídico e me familiarizar com o "juridiquês" dos ministros. Foi um aprendizado incrível.

ABAN: Historicamente o mundo vive ciclos e polaridades, como você vê o mundo de hoje? E o Brasil?
Cristina: O mundo (e o Brasil incluído) vive um momento de extremismos, devido a inúmeros fatores (estruturais e circunstanciais). Vou me ater a uma, dentre muitas questões. Acho que as sociedades civis se sentem pouco ou nada representadas nos modelos políticos vigentes em alguns países. É preciso repensar e propor novas formas de representação democrática, de solução para vários dilemas das sociedades modernas e de realização de aspirações legítimas das populações. Alguns países, na Escandinávia, por exemplo, conseguiram resolver algumas dessas questões de maneira bastante razoável. Ou seja, há soluções a vista. Mas é preciso coragem e disposição para enfrentar esses dilemas. No caso do Brasil, não sei se verei uma redução significativa da nossa desigualdade socioeconômica. Esse é um trabalho para muitas gerações. 

ABAN: Além de atuar na Globo você tem algum projeto independente, especial, ou pretende ter?
Cristina: Estou escrevendo um livro sobre o rompimento da barragem de Fundão, no pouco tempo que me sobra do trabalho na televisão. Já mudei o prazo de entrega várias vezes, por isso nem digo mais quando vou terminá-lo. Mas é o meu maior projeto profissional no momento.

ABAN: Por que jornalismo?
Cristina: Quando escolhi jornalismo, queria uma profissão que me ajudasse a compreender melhor o Brasil e o mundo, que não tivesse rotina e que tivesse muita viagem, que eu adoro. O jornalismo me deu tudo isso e muito mais. "Começaria tudo outra vez...".

 

 

ABAN: Valeu a pena a “decepção momentânea de seus pais”, ao anunciares que farias vestibular para jornalismo?
Cristina: Claro. Hoje, eles têm o maior orgulho do meu trabalho (risos).

ABAN: O que você diria para um jornalista em formação?
Cristina: Estude muito, se prepare, se qualifique para exercer bem a profissão e saiba que é uma profissão que exige sacrifícios na vida pessoal.

ABAN: Algo que queira destacar?
Cristina: O bom jornalismo é mais necessário que nunca. Num mundo de "fatos alternativos", precisamos cada vez mais de jornalistas comprometidos com a profissão e com a sociedade em que vivem.

 

 

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