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A relação entre literatura e jornalismo

October 4, 2017

Confira a entrevista com Tom Correia, egresso da FSBA e curador da Flica 2017.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A 7ª edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira começa nesta quinta-feira (05), na cidade histórica de Cachoeira, distante cerca de 120 km de Salvador. O curador da Flica 2017 (www.flica.com.br) é o escritor e jornalista Tom Correia (www.tomcorreia.com.br), que concedeu à ABAN uma entrevista exclusiva por e-mail. Nela, Tom fala sobre atrações da Festa Literária no recôncavo baiano, conta um pouco sobre sua relação com a literatura e o jornalismo e faz uma análise crítica sobre o jornalismo no Brasil. “A impressão que tenho é de que o jornalismo no Brasil é bem legível, sim: de modo geral, excluindo-se as exceções, tornou-se um refém assumido das redes sociais, rendeu-se à corrida dos caça-clicks, se satisfaz com os likes e compartilhamentos gerados por um fait-divers ou por uma subcelebridade grotesca”, afirma.  

 

Vale conferir.

 

 

ABAN: Queria começar pedindo que você explicasse o que faz o curador de um evento literário como a Flica? É difícil selecionar as atrações para o evento?

TOM CORREIA: A Flica rapidamente se estabeleceu como um dos eventos literários mais importantes do país e desperta interesse muito grande de autores e editoras que desejam participar de alguma forma. Um curador precisa estar o mais atento possível à produção literária contemporânea, às trajetórias de autoras e autores e também ao que acontece de mais relevante no Brasil e no mundo para além da Literatura. É difícil na medida em que é impossível convidar todos que desejamos para uma festa que dura quatro dias. Além disso, precisamos contar também com as agendas dos autores, principalmente dos internacionais, que são muito requisitados por outros eventos literários do mundo inteiro. Mas também é um trabalho prazeroso, que exige cuidado e atenção máxima aos detalhes. Aliás, "cuidado" é uma das raízes semânticas da palavra "curador". Por isso também é preciso que o curador se coloque o tempo todo no lugar do outro para compreender suas expectativas. Isso vale desde os autores até o público. Trata-se de um evento que desperta uma relação afetiva muito intensa com as pessoas. 

 

ABAN: Presume-se que a Flica atraia, principalmente, escritores, editores, intelectuais, professores e leitores, digamos, mais vorazes. Você acredita que participar de um evento como a Flica pode contribuir para que pessoas que não têm o hábito da leitura sejam fisgadas pela literatura?

TOM: Sem dúvida. Tudo que se discute em relação à precariedade da leitura em nosso país se vê refletido em eventos literários com este perfil da  Flica, que promove uma aproximação entre o escritor e o leitor. Acredito que a experiência de se visitar uma cidade singular como Cachoeira para assistir gratuitamente a uma mesa, pode despertar um interesse genuíno pelos livros. Uma fala de um escritor pode tocar o público de tal forma a ponto de sensibilizá-lo e seduzi-lo com seus livros e desencadear a leitura de outros autores. Nesse sentido, temos a Fliquinha, com diversas atividades voltadas ao público infantil, a exemplo de rodas de leitura, peças de teatro com viés literário e apresentações musicais. Mais do que leitores no futuro, as crianças são potenciais escritoras, mobilizadoras e atuantes no campo das artes e da literatura.

 

ABAN: Está na programação da Flica 2017 para o próximo sábado, 07, a realização da Mesa “Entre a ficção e a notícia: limites, contrapontos e narrativas possíveis”, que vai reunir os jornalistas Francisco José e Ricardo Ishmael, que lançou recentemente seu primeiro livro, “O curioso destino de Rita Quebra-cama”. Além dessa, que outros debates você considera particularmente interessantes para jornalistas e estudantes de jornalismo?

TOM: Para além da arte literária, haverá debates sobre temas que nos afetam diretamente: as questões de gênero, a violência, o racismo, as redes sociais e suas particularidades. A própria trajetória de cada autor convidado poderá servir como contraponto ao que vivemos hoje num mundo à beira da convulsão. Tanto Cachoeira quanto a própria Flica são dois naturais geradores de pautas para jornalistas e graduandos do curso. A festa proporciona muitos encontros e descobertas, basta seguir a máxima do mestre Gay Talese: a arte de sujar sapatos e manter o olhar atento. São muitos personagens que estarão circulando em Cachoeira e muitas histórias de vida que merecem ser levadas a público.

 

ABAN: Você poderia falar um pouco sobre outras atrações da Flica 2017?

TOM: Eu destacaria a mesa em homenagem à Cachoeira, reunindo nomes locais que vão nos apresentar sua dimensão histórica e cultural de forma profunda, mas ao mesmo de modo mais descontraído. Esta era uma dívida de gratidão da Flica com a cidade que desde 2011 recebeu o evento de forma tão acolhedora. A presença de autoras negras em dia e horário nobre, para que elas apresentem suas visões de mundo deverá ser outro ponto alto. Escritoras do porte de Paulina Chiziane, que estará pela primeira vez na Bahia, tem um valor simbólico muito grande para o nosso contexto histórico e social. Também pela primeira vez teremos uma mesa indígena, no encerramento da Festa, para que a Literatura feita pelos nossos remanescentes seja capaz de nos reconectar às nossas origens. Além disso, o nosso homenageado, o poeta Ruy Espinheira Filho, vai nos contar sobre sua trajetória e seus poemas. Ele que é um dos nomes mais consagrados e queridos pelo meio literário. 

 

ABAN: A Bahia é o berço de grandes nomes da literatura, a exemplo de Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Castro Alves, Gregório de Matos, entre tantos outros.  Na sua avaliação, quem são os principais autores da literatura baiana contemporaneamente?

TOM: É uma pergunta que ao mesmo tempo nos instiga a destacar nomes, mas ao mesmo tempo é um grande risco de se cometer a indelicadeza de esquecer esse ou aquele autor. O que pode se afirmar é que a Literatura feita na Bahia e por baianos tem uma vida produtiva muito intensa, com diversidade de olhares e abordagens. São poetas, contistas e romancistas que têm sido premiados nacionalmente, contemplados por editais de cultura e lançado livros de qualidade com bastante frequência. Além disso, há os aspirantes a escritores, que estão em processo de criação e de autodescoberta, mas com potencial para publicar seus primeiros trabalhos. 

 

ABAN: Você produziu um dos melhores TCCs do curso de jornalismo da Faculdade Social da Bahia – a grande-reportagem “Vidas suspensas”, sobre pessoas desaparecidas em Salvador , que foi aprovado com distinção, o que é raro no curso da FSBA. Como a criação literária lhe auxiliou nessa construção jornalística?

TOM: Essa grande-reportagem é um dos trabalhos que mais me orgulham até hoje porque foi um processo de apuração e de redação muito intenso. Porém, muitos fatores contribuíram para o resultado e considero todos eles como co-autores do "Vidas suspensas". Primeiro, a estrutura da FSBA e o seu corpo docente. Tivemos professores fantásticos que eram verdadeiros mestres, que nos fizeram enxergar além. E não falo "mestre" apenas no sentido de título acadêmico, é no sentido de profundidade, de nos ensinar como se fazer jornalismo de excelência já no ambiente da faculdade. A orientadora que tive foi decisiva e fundamental: sem sua parceria e sensibilidade, teria sido impossível encontrar sozinho as soluções, os recortes e as abordagens para expor de forma consistente um tema tão delicado (e infelizmente sem solução a médio prazo). Acredito que os livros de ficção que eu já havia publicado e a familiaridade com literatura também foram importantes na construção do texto final. Um dos livros que mais me influenciaram na época foi "A sangue frio". Genial e polêmico, (Truman) Capote e seu estilo eram sempre uma inspiração, mas guardando sempre as proporções. Uma das grandes preocupações sempre foi tratar o drama das pessoas desaparecidas com dignidade, sem apelos e sem derrapagens na pieguice, nas soluções fáceis. 

 

ABAN: No sentido oposto, a formação em jornalismo trouxe contribuições para sua produção literária?

TOM: Essa formação em jornalismo, embora tardia, no meu caso, despertou um olhar mais crítico sobre o que produzo em literatura e fotografia. Os critérios de autoavaliação se tornaram mais rigorosos, erradicando a permissividade e a autoindulgência. Em termos práticos, acredito que o jornalismo tornou o texto literário mais enxuto, mais preciso, além de aguçar o olhar em relação a temas de relevância e a maneira mais adequada para abordá-los. O período de aprendizagem e prática na FSBA foi um dos momentos mais prazerosos que já tive. 

 

ABAN: O escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) disse que “a diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida”. No Brasil de hoje, a afirmação de Wilde continua atual?

TOM: Wilde era gênio à frente do seu tempo e, como tal, sempre será atual. Suas provocações nos fazem refletir e a impressão que tenho é de que o jornalismo no Brasil é bem legível, sim: de modo geral, excluindo-se as exceções, tornou-se um refém assumido das redes sociais, rendeu-se à corrida dos caça-clicks, se satisfaz com os likes e compartilhamentos gerados por um fait-divers ou por uma subcelebridade grotesca. Não vou nem entrar no mérito do papel do jornalismo diante do atual estágio falimentar da política nacional, mas a grande crise no setor, que sepultou os segundos cadernos e enxuga as redações com passaralhos consecutivos, manda um recado bem claro: é tempo de murici. Por sua vez, a literatura é lida, mas por poucos. Escritores desejam muito ser lidos, mas às vezes parece que se esquecem que fazer Arte para ser consumida em larga escala pode significar também cortar fora a própria orelha. 

 

ABAN: Você tem memória do primeiro livro que lhe marcou?

TOM: Sim, tenho essas leituras bem vivas na memória. Na infância, "O mistério do cinco estrelas", da antiga série Vaga-lume. O autor, Marcos Rey, não à toa foi redator do Sítio do Picapau Amarelo na lendária adaptação pra TV. O livro me marcou profundamente, foi um encantamento. Outra leitura desconcertante, na adolescência, foi o conto "O crime do professor de matemática", de Clarice Lispector. Até hoje, quando releio a história, a magia permanece lá, vibrando. E um pouco mais tarde, outra descoberta que me influencia até hoje. Comprei um romance apenas por causa do título, pois não conhecia o autor: "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos", de Rubem Fonseca. Ele foi o escritor que marcou uma geração de leitores que eram fieis ao seu estilo, muitos se tornaram escritores por causa dele.  A lista de obras-primas de Rubem é extensa, incluindo contos irretocáveis como "A força humana", "Lucia McCartney" e "O buraco na parede". Infelizmente é um escritor menos lido atualmente, mas cuja obra guarda em si toda sua potência.

 

ABAN: Quem são seus autores prediletos (brasileiros e estrangeiros)? Consegue fazer uma lista tríplice daqueles que você mais gosta? 

TOM: É uma pergunta recorrente que, à medida que o tempo passa a resposta muda porque nos encantamos todos os dias com novos autores ou clássicos que nunca tivemos a oportunidade ler. Mas vamos lá. Atualmente eu citaria, entre os brasileiros, Vasconcelos Maia, baiano pouco conhecido que publicou contos inesquecíveis ("Cação de areia" é um deles); João Antônio é sempre uma referência para mim, assim como Machado de Assis, um nome que basta por si só. Entre os estrangeiros, além do gigante Gabriel García Márquez, eu sou um dos que se rendem à simplicidade encantadora de John Fante. E recentemente li "Os dias do abandono", de Elena Ferrante e gostei bastante do seu olhar sobre o universo feminino, metáforas e soluções literárias para a trama. Mas listas tríplices são ingratas. São dezenas de escritores que seriam citados: Lima Barreto, João Ubaldo, Hilda Hilst, Salinger, Balzac, Saramago, Flannery O'Connor, Bukowski, Susan Sontag etc.#

 

 

Conheça os livros de Tom Correia:

 

 

 

 

 

 

 

 

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