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"A gente vira a mulher de fulano"

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Do lado de fora das grades, um mundo de preconceitos. Dentro das cadeias, elas não têm sequer nomes. “A gente vira a mulher do fulano”, desabafa Paula. Aqui, os personagens são reais, mas os nomes foram trocados por questões de segurança dos entrevistados.

 

 

Paula, auxiliar de serviços gerais, 41, é casada com João há 14 anos. Juntos têm um filho, Cauã, e uma dura história de amor. João está preso, há sete anos, pelo artigo 157 – assalto a mão armada. Eles ainda precisam cumprir mais cinco. Por que eles? Mesmo do lado de fora, Paula dorme, acorda e respira o mundo de lá de dentro. “Ficamos pensando no dinheiro para comprar as coisas deles, ficamos preocupadas se eles vão aprontar lá dentro e aumentar a pena. Penso nisso todos os dias, é uma angústia”. A realidade de Paula é semelhante a de centenas de mulheres que esperam os seus companheiros cumprirem pena no Complexo Penitenciário de Salvador no bairro da Mata Escura. O presídio Lemos de Brito tem capacidade para 771 internos, mas atualmente está com 1485.

 

 

 

O contato dos presos com a família é realizado em dias e horários específicos da semana. Na Lemos de Brito, as visitas são as sextas e domingos das 8h às 16h. Estão divididas em dois tipos, a social – feita por pais, mães, filhos e irmãos – e a íntima – feita por esposas e companheiras. Para garantir maior tempo com os internos, as mulheres chegam cedo, ficam cerca de 24 horas na porta do presídio e até acampam. Paula, que engravidou em uma das visitas íntimas, diz que não dorme mais na frente do complexo por causa do filho de um ano e cinco meses. “Antes chegava aqui às 19h do dia anterior da visita, como eu não tinha barraca, dormia no lençol mesmo”.       

 

Tarefas cotidianas, como tomar um simples banho, exigem das mulheres dos presos estratégias e muito companheirismo de quem compartilha a mesma realidade. “A gente pagava uma pousada para tomar banho, as outras mulheres, que não tinham dinheiro, improvisavam na frente do complexo fazendo cabanas”.

 

Dona Maria, 55, técnica de enfermagem, teve a vida transformada após a prisão do filho. Daniel foi condenado a 24 anos de prisão por homicídio. Há um ano e sete meses, ela luta não só para estar ao lado do filho toda semana, mas para provar a inocência dele. “Trabalho dia e noite para conseguir dinheiro para os advogados, eu tenho fé, meu filho vai sair de lá”. Para Dona Maria os dias de visita são os mais temidos. “É terrível, tem muita briga. Eu chego cedo à fila, mas tem mulher que chega tarde e passa na frente. Eu não falo nada porque tenho medo, já presenciei muitas brigas de mulheres na frente do presídio com faca e tudo”. Ela diz ainda que quando não dorme na frente do presídio acorda quatro horas da manhã para fazer comida e levar para o filho.

 

 A hora da revista é outro duro momento para Dona Maria. Segundo ela, a parte mais constrangedora da visita porque alguns agentes ainda humilham algumas mulheres. Nem com o fim da chama revista vexatória, quando as visitantes eram despidas na frente de todos, esse constrangimento teve fim. “Quando o detector apita, por causa de um botão da calça ou um zíper, as agentes fazem a mulher tirar a roupa toda e agachar”. Dona Maria conta ainda que as mulheres que não sabem dos seus direitos fazem o que a agente manda, mas as que sabem se recusam a fazer. “Eu sei dos meus direitos e não agacho, digo que não e ponto, mas tem mulher que fica com medo e faz”.

 

Foi em uma dessas revistas que Paula foi pega com maconha. “Levei maconha para ele porque ele estava devendo lá dentro e o cara pediu maconha como pagamento. Fiquei sem opção aqui fora, aí levei”. Ela não responde a processo por isso, mas está suspensa das visitas. Há oito meses não vê João.

 

 

 

Sem a ajuda do marido, as dificuldades enfrentadas por Paula são inúmeras, mas a que mais incomoda é o preconceito. “Em algumas empresas que eu trabalhei já me demitiram quando descobriram que eu precisava ficar fora do serviço durante as sextas e os domingos”. Ganhando cerca de um salário mínimo, ela revela que a maior parte do dinheiro é gasto com o marido dentro da cadeia. “É material de limpeza, higiene e comida. Trago a cada 15 dias porque se eu trouxer toda semana não vai sobrar dinheiro para pagar o resto das contas”.

 

Mesmo com toda luta e resiliência, Paula confessa que em alguns momentos fraqueja. “Me pergunto até quando vou conseguir aguentar isso, mas aí lembro que ele não tem ninguém, só tem a mim e eu amo ele demais para terminar”. A frase sai com um nó na garganta e lágrimas nos olhos.

 

Dona Maria diz que, apesar de tudo, a parte mais difícil de todas é na hora de ir embora e deixar o filho preso. “Na hora de ir embora é um sofrimento, eu choro em deixar meu filho naquele lugar sem saber quando ele vai sair, eu me sinto muito mal e carrego essa culpa comigo”.

 

O advogado criminalista Júlio Parolim afirma que a mulher pode denunciar a revista vexatória e aponta que consequência penal poderá sofrer se, durante um período de visita, for pega portando drogas. Ouça a entrevista completa do advogado criminalista na Rádio Aban.

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